Jalapão para se religar

Jalapão-DunasBrasília, outubro 2017 - Não dá para chamar o Jalapão (TO) de refúgio, porque é um dos lugares que ainda nos coloca em  conexão total com a Terra e impõe reflexões aos borbotões. E, por isso mesmo, é um  destino especialíssimo para aqueles momentos que tudo o que se quer é um tempinho para repensar  rotas,  escolhas e consequências, “religado” com a vida e seus valores.

Bastam quatro dias neste “santuário” brasileiro localizado a leste do estado do Tocantins.

A geologia desta  região data do período mesozoico e calcula-se que exista há algo como 135 milhões de anos.

O Jalapão, isolado do restante do País e do mundo até perto do ano 2000, é um dos lugares de menor  densidade demográfica no globo. De acordo com fontes locais, em sua extensão de 34 mil km2, não chega a ter 1 habitante por km2. Abre-se ao visitante com a exuberância de um cerrado a perder de vista, áreas de deserto, que superam, em tamanho, estados como o de Sergipe, por exemplo, e rochas de arenito que se erguem como muralhas. Ainda nos entrega oásis paradisíacos rodeados de buritis (palmeiras da região), fervedouros que convidam a banhos inesquecíveis e dunas de areia que serpenteiam a paisagem. Cachoeiras em profusão, cânions surpreendentes e uma fauna especial deste ponto do mundo onde mescla-se e multiplica-se a vida de um jeito singular são outras atrações que esperam o viajante.

Acomodações - Contudo, não pense o Jalapão com estrutura urbana. A falta dela é que vai garantir  todos  os insights enquanto você caminha pelo campo ou sobe rochas. É o inusitado do lugar que vai  despertar reflexões enquanto nada-se e enquanto entrega-se ao céu todo bordado de estrelas que  parecem nos permitir alcançá-las com as mãos, porque lá a iluminação urbana não há. Baixe aplicativos  para identificar constelações, é o lugar ideal para brincar com isto.

As acomodações nas pousadas ou comunidades quilombolas são confortáveis e sem supérfluos. A comida,  sempre caseiríssima, é à base de produtos locais – galinha caipira, mandioca, feijão, rapadura, batata  doce, farofa, peixe, sorvetes artesanais -, uma tentação atrás da outra.

Os telefones e sinal de internet não são constantes. Luz e banho quente, sim. As pousadas mais estruturadas têm inclusive ar condicionado.

Como chegar - Sobre o transporte, não arrisque, pois andar pelo Jalapão em um carro 4 X 4 é imprescindível. Para chegar ao deserto do Jalapão, vindo de qualquer lugar, o ideal é partir da capital do Tocantins, Palmas, em um veículo com tração nas quatro rodas, preferencialmente acompanhado de um guia local. De Palmas à fronteira do Jalapão, na cidade de Santa Tereza do Tocantins são cerca de 100 quilômetros de asfalto.

Na capital do Tocantins, há muitas agências e profissionais autônomos que têm todo o conhecimento e  estrutura para fazer seus poucos dias no Jalapão tornarem-se eternos em ótimas recordações. Viajei em  uma Expedição Fotográfica organizada pelo fotógrafo brasiliense, Ricardo Botelho, que contou com a  expertise e feelling do Fernando Jalapão, da Livre Expedições. Realmente, além de conhecer muito sobre  a região, ele nos levou aos lugares das melhores fotos nos horários mais adequados em luminosidade e  movimento.

A tranquilidade de fazer esta viagem com um guia local é que, em poucos dias de viagem, problemas  eventuais como atolamento na areia, falta de combustível, vaga para dormir nas pousadas, almoço no  meio do deserto debaixo de 40oC, deixam de ser problema seu e o aproveitamento é maior.

O Jalapão não é para amadores, oriente-se por esta verdade! Sua capacidade de soluções urbanas de pouco adiantarão por lá.

Orçamento - O Jalapão também não é turismo que possa se considerar barato. As distâncias, a proposta de estrutura rústica e pouca deixam o passeio de poucos dias com orçamento significativo.

Uma das situações diferentes é que ao optar por com guia local e deixar tudo por conta dele – transporte,  hospedagem, alimentação – passa-se quatro dias com o mínimo contato com dinheiro. Lá, não há muito  onde gastar, exceto nas comunidades quilombolas quando as peças artesanais em capim-dourado  chamam  a atenção. Se você optar por encarar o Jalapão sozinho em um 4 X 4, calcule que são, em média, 2h para fazer 80 quilômetros sobre muita areia, diárias médias com café da manhã e jantar de R$   200,00, ingresso nos passeios em torno de R$ 15,00 cada. A maior parte dos lugares visitáveis é   propriedade particular.

Na bagagem, além de dinheiro vivo (poucos comércios aceitam cheques, bancos são difíceis acessar,  cartão de crédito não tem como passar porque a internet não é estável), coloque protetor solar, repelente, blusa leve de manga comprida, um casaco para a noite, chapéu, boné, uma bota para caminhar, chinelo, roupa de banho e lanterna.

Regras - Por último, mas o mais relevante, peça licença e agradeça internamente aos seres que habitam este “santuário” antes de penetrá-lo e siga as instruções mínimas de boa convivência com o respeito a essas regras:

É permitido

Caminhar sempre nas trilhas

Levar seu lixo até o ponto de coleta mais próximo

Levar somente boas lembranças

Não é permitido

Fazer churrasco ou fogueira

Caçar, pescar ou acampar nos atrativos

Deixar ou enterrar o lixo gerado

Entrar nas atrações com animais de estimação

Portar garrafas e copos de vidro

Usar som alto

Usar embarcações sem autorização prévia

Perturbar ou alimentar os animais silvestres

Abrir novas trilhas

Retirar vegetação local

 

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Pôr do Sol na Pedra Furada
Jalapão (TO)
Texto e fotos:
Teresa Cristina Machado